SUÍÇO APAIXONADO POR SÃO PAULO RETRATA A CIDADE E SEUS CONTRASTES

Por Gaspar Edgardo Barusso e Raphael Thebas

Mais pontual que um relógio suíço, Armin Gyger chegou como o combinado, às 10 horas da manhã já estava na frente da rústica Xerox, na Avenida Rouxinol, em Moema, Zona Sul de São Paulo, onde seria realizada a entrevista. Com um tênis pouco comum entre homens de sua idade, vestindo uma calça despojada e uma camisa com a bandeira do Brasil, Gyger já mostrava ali como e qual seria o tom da conversa.

 Nascido em 1939, em um povoado próximo a Zurique, centro financeiro da Suíça, Gyger deu seus primeiros passos na confeitaria de sua família, e foi decorando tortas e bolos que percebeu sua capacidade para dar cor às telas.

Entre idas e vindas a São Paulo desde seus 20 anos, o jovem viu na capital paulista um mundo à parte e cheio de contrastes, o principal assunto de suas obras.

 Há cinco anos morando de forma definitiva na cidade, Armin Gyger é um homem de iniciativa criativa capaz de observar e retratar diversos aspectos de São Paulo. Apesar de não ter sido o seu primeiro destino quando chegou ao Brasil. “Cheguei ao Rio de Janeiro e conheci o porto e a rodoviária. Logo que desci do navio um alemão me disse: se quer trabalhar, vá para São Paulo”.

Quando perguntado o motivo para ter deixado o conforto e a organização da Suíça para se arriscar no caos da capital paulista, ele responde: “Apesar de ter nascido em uma região da Suíça onde a língua oficial é o alemão, sempre me identifiquei com a região italiana. Lá as pessoas são mais calorosas e abertas que o resto do país. Aspecto que encontrei ainda mais assíduo em São Paulo, uma cidade aberta que não rejeita nada”. 

Armin ressalta também, e com grande entusiasmo, a miscigenação da megalópole, seu comércio, o trânsito e a correria das pessoas, o cotidiano maluco de quem vive em São Paulo. Suas obras são trabalhadas com bastante textura numa mescla de acrílico, óleo e colagens.  “Comecei a fazer os quadros com propagandas para vender às empresas, porque vender arte em São Paulo é muito complicado”, diz o artista que, apesar da crítica, já vendeu suas obras a restaurantes famosos como o Família Mancini, na Bela Vista e Padrão, na Rua São Bento.

Com a pouca valorização da arte na capital paulista e a dificuldade de tirar um lucro digno do trabalho exigido em cada obra, Armin recebeu a sugestão de vender postais com suas pinturas nas bancas espalhadas pela cidade. Hoje, esses postais podem ser encontrados até na Avenida Paulista, onde fazem sucesso. 

O artista comercializa suas obras de forma completamente independente e alternativa. Seus trabalhos são divulgados e negociados no ‘boca a boca’. Se não os vende, pergunta se a pessoa não gostaria de ficar com as obras até que não sejam vendidas. “Não tenho espaço para guardar todas as telas em minha casa”.

Além de confeiteiro e artista plástico, o suíço tem também cinco romances publicados, o último deles recebe o nome de Nada como a manhã do dia seguinte. Uma obra vista por ele como uma comédia com fundo filosófico, o livro trata a existência do livre arbítrio e a maneira que a sociedade assimila essa condição. 

quarta-feira, Novembro 28, 2012
A ÁRVORE DA METRÓPOLE
Quando chega dezembro, o paulista que passa pela Av. República do Líbano, na zona sul, enfrenta o trânsito. O motivo são as obras da árvore de Natal de São Paulo, construída todos os anos bem ao estilo da metrópole.
Não há jardineiros ou gente assim, mas homens de capacete e luvas grossas da construção civil. No lugar de troncos e galhos, a estrutura é de metal e cabos de aço. E ao invés dos ramos e frutos, os painéis de LCD brilham durante a noite.
O que mais chama a atenção, mas que poucos param para vêr, é a engenhosidade e o esforço humano envolvido na construção desse capricho natalino. Num dia contei 30 operários trabalhando ao mesmo tempo. Escalando e pendurando-se na estrutura a milhares de metros do chão - passo a passo iam ganhando o céu, até que a grande estrela fosse encaixada pelos mais habilidosos num espaço que cabiam no máximo três deles.
A Árvore de São Paulo tinha 53 metros de altura em 2011. Mas como é de São Paulo, ela cresce 5 metros todo ano - é o que diz a Prefeitura.

A ÁRVORE DA METRÓPOLE

Quando chega dezembro, o paulista que passa pela Av. República do Líbano, na zona sul, enfrenta o trânsito. O motivo são as obras da árvore de Natal de São Paulo, construída todos os anos bem ao estilo da metrópole.

Não há jardineiros ou gente assim, mas homens de capacete e luvas grossas da construção civil. No lugar de troncos e galhos, a estrutura é de metal e cabos de aço. E ao invés dos ramos e frutos, os painéis de LCD brilham durante a noite.

O que mais chama a atenção, mas que poucos param para vêr, é a engenhosidade e o esforço humano envolvido na construção desse capricho natalino. Num dia contei 30 operários trabalhando ao mesmo tempo. Escalando e pendurando-se na estrutura a milhares de metros do chão - passo a passo iam ganhando o céu, até que a grande estrela fosse encaixada pelos mais habilidosos num espaço que cabiam no máximo três deles.

A Árvore de São Paulo tinha 53 metros de altura em 2011. Mas como é de São Paulo, ela cresce 5 metros todo ano - é o que diz a Prefeitura.

quarta-feira, Outubro 31, 2012

Na Zona Sul se esconde um beco entre dois edifícios, um mais luxuoso que o outro. Se não fosse beco, seria um poço onde escorre das varandas tudo que o luxo não quer. Porém, o abandono não é total - e talvez nunca seja em lugar algum da cidade grande com pouco espaço para muita gente - alguns renegados e desconhecidos sempre deixam marcas e vestígios em lugares igualmente renegados e desconhecidos. 

quarta-feira, Setembro 26, 2012

EM TERRA QUE NÃO SE MOVE, QUEM SE MOVE É REI

imageObjeto de desejo de metrópoles, palavra certa em discursos acadêmicos, políticos e eleitoreiros: sustentabilidade e mobilidade. Nenhum moderno é moderno se não usar essas palavras.

Fui a um congresso essa semana. Trabalho na Rebouças, e o congresso foi no Transamérica. Quase não fui só de pensar na dificuldade que é atravessar a cidade.

Congresso sobre edifícios sustentáveis. Grande tendência arquitetônica e mercadológica.

Edifícios sustentáveis para uma cidade sustentável. Um novo e promissor nicho de mercado para empresas e consultores. Um novo diferencial a ser procurado. Uma obrigação arquitetônica deixada de lado em algum momento da história.

Ok, vamos de transporte coletivo.

Rebouças pelo corredor de ônibus até a estação Eldorado. CPTM até a estação Sto.Amaro.

Ônibus. Três quadras a pé. Estação, 5 minutos olhando o rio. Trem, cinco quadras a pé, centro de exposições. Levou 40 minutos.

Da janela do ônibus e do trem, na ida e na volta, me senti um privilegiado. Um Moisés andando sobre um mar de carros, sobre o mar da Rebouças e o mar da marginal.

Em terra que não se move, quem se move é rei.

Acho que de carro teria levado no mínimo o dobro de tempo.

R$ 4,65 para ir, R$ 4,65 para voltar. De carro, R$ 15 de combustível e R$ 25 de estacionamento. De taxi, R$ 45 para ir e R$ 45 para voltar. Acho que fiz um bom negócio. Fora que ganhei pontos com o planeta…

Cidade sustentável com edifícios sustentáveis pressupõe uma sociedade sustentável,  pessoas com hábitos e atitudes sustentáveis.  Provavelmente, isso significaria, automaticamente, maior mobilidade urbana. E maior qualidade de mobilidade. Porque esse reinado da massa sobre o mar de carros não é, também, nenhum um mar de rosas. É um mar de gente e em alguns momentos é um mar revolto, ressacado.

Enquanto os carros se espremem na rua, eu me espremia no ônibus. A logística de entrada e saída dos ônibus em alguns horários é impossível. Não há como embarcar bem, se posicionar e descer sem o estresse da sensação de que você vai perder o ponto ou vai ter que sair gritando que vai descer, vai descer! Fora a sensação de que o que vai na sua mão vai cair ou amassar e o que você tem no bolso, num passe de mágica, poderá não ter mais. O metrô não é diferente. Nem o trem.

 Aliás, enquanto esperava o trem, sentado nas cadeiras da estação, percebi que o rio Pinheiros tem ângulos bem bonitos. Mas logo outro sentido se misturou a visão do rio. O cheiro do rio. Horrível. Um esgotão. Uma pena, porque a espera de cinco minutos que poderia ser bem agradável se tornou agoniante.  Chegou o trem. Rapidamente encheu - e encheu mais a cada estação. A ponto de eu duvidar que conseguiria descer. Consegui, na raça, descer na estação Sto.Amaro. E, aí, uhu, se você tiver uma prancha, ótimo lugar para surfar. Ao abrir a porta, é um volume de gente correndo em direção à escada que é só se deixar levar, rapidinho você está na crista da onda, pronto para escolher a melhor saída. Lá fui eu, em 5 minutos estava dentro de um ambiente com ar condicionado, mais seguro, e homogêneo, elitizado, preparado para receber a elite dos edifícios verdes…Fila mesmo, só na hora do coffee break…Ah, e para sair do estacionamento ou pegar um taxi. 95% das pessoas que estavam lá foram de carro. Eu cheguei mais rápido!

Talvez esse percentual diminua no próximo ano. Quem sabe se houver mais ônibus nos corredores, ou mais corredores. Quem sabe se o rio não cheirar mal. Se o trem for mais frequente e rápido. Quem sabe se o transporte coletivo não for só para a massa, para o gado. Porque enquanto for só para a massa que não pode ter carro, será um favor qualquer melhoria.

Estamos acostumados que o transporte público seja lotado e as pessoas se espremam, tanto quanto estamos acostumados que o transito seja engarrafado e não ande. Ser rei, no carro ou no busão, tem seus ônus e bônus…

Produtos e palestras interessantes. Assuntos e tecnologias de ponta. Parece que um novo mundo, novas cidades e novos prédios vêm aí…

Não sem um novo homem.   

Fotografia: vitrailstudio

terça-feira, Setembro 18, 2012
Caminhando, um pé atrás do outro. Devagar, sem pressa, sentindo o vento contra o corpo e o chão contra a sola. Observando as pessoas que andam apressadas, cada rosto uma história. Estatuas celebrando o passado, muito além da memória. Prédios se erguendo imponentes, mostrando que o homem é capaz. Parques ocultos entre as ruas, pequenos oásis de paz.
Abrindo o coração a São Paulo, rendendo-se aos seus encantos. Descobrindo pequenos tesouros, que se escondem por todos os cantos. Ouvindo entre as buzinas, pássaros a cantar. Andando pela cidade que eu aprendi a amar.
Foto: Guilherme Santana/ Texto: Pedro do Amaral

Caminhando, um pé atrás do outro. Devagar, sem pressa, sentindo o vento contra o corpo e o chão contra a sola. Observando as pessoas que andam apressadas, cada rosto uma história. Estatuas celebrando o passado, muito além da memória. Prédios se erguendo imponentes, mostrando que o homem é capaz. Parques ocultos entre as ruas, pequenos oásis de paz.

Abrindo o coração a São Paulo, rendendo-se aos seus encantos. Descobrindo pequenos tesouros, que se escondem por todos os cantos. Ouvindo entre as buzinas, pássaros a cantar. Andando pela cidade que eu aprendi a amar.


Foto: Guilherme Santana/ Texto: Pedro do Amaral

quinta-feira, Setembro 13, 2012

Reduz cada vez mais o número de camelôs e trabalhadores informais no centro de São Paulo

De 2009 a maio de 2012, o número de trabalhadores informais passou de 4600 para 558; dossiê revela práticas de limpeza social

“Eu sustento uma família inteira aqui, não vendo drogas, eu vendo arte”, disse o artesão João Nascimento, conhecido como Capoeira, e que vive da venda de seus colares e pulseiras a cerca de cinco anos no Vale do Anhangabaú. Capoeira, que é um dos que foram afetados pelo esforço do governo estadual e da prefeitura em erradicar o trabalho informal no centro de São Paulo, relatou também que diversas vezes foi vitima de abuso dos policiais: “eles aparecem de surpresa e fazem o arrastão, levam todo o nosso trabalho junto com eles e ainda querem dinheiro de vez em quando”.

Em 2006, o Fórum Centro Vivo, organizado em iniciativa da sociedade civil, emitiu o Dossiê Sobre a Violação de Direitos Humanos no Centro de São Pauloapontando diversas práticas de “limpeza social” sob o pretexto da revitalização da região central. O dossiê revela que diversos abusos são cometidos em relação à população em situação de vulnerabilidade do centro, como dependentes químicos e moradores de rua. Mas são os trabalhadores informais as principais vítimas de extorsão por representantes do Estado.                                              

Segundo dados do IBGE, a cidade de São Paulo é a capital brasileira da informalidade, com 34,1% de sua população ativa trabalhando sem carteira assinada. Conforme levantamento feito este ano pela prefeitura, o trabalho informal está mais concentrado da região central. Só na Subprefeitura da Sé, são estimadas mais de 10 mil pessoas sustentando suas famílias através do comércio informal, reunidas em lugares já bastante familiares da população paulistana como as ruas 25 de Março e Santa Ifigênia.

Além da questão da informalidade, que interfere diretamente na arrecadação pública, o centro de São Paulo também é conhecido pelo alto índice de desigualdade, traduzida na quantidade de usuários de drogas e moradores de rua que se instalaram na região. Por essas razões, a questão da revitalização do centro vem sendo amplamente discutida e posta em prática – em alguns casos de maneira contraditória.

Há três anos, 4600 camelôs tinham suas TPU’s, Termo de Permissão de Uso municipal para comercializar nas ruas; esse número passou para 558 em maio deste ano. Também tiveram suas permissões cassadas cerca de 250 deficientes, em sua maioria cadeirantes. Ainda no mesmo mês, o atual prefeito Gilberto Kassab também comunicou o recolhimento de todos os termos emitidos, com o objetivo de acabar de vez com o comércio popular e viabilizar a entrada dos grandes investimentos privados que iriam promover a região.

Em resposta à medida do prefeito, os ambulantes se organizaram e conseguiram uma liminar da justiça que revogava provisoriamente a cassação. Para Maria Flora, comerciante da Rua 25 de Março que participou do movimento contra a ação de Kassab, a luta não acabou, a prefeitura quer tirar o trabalhador informal da rua, mas não oferece ou estimula outras opções de trabalho. “A gente tem família pra cuidar, prefiro brigar com o prefeito do que com a fome”, completou.

O fim do trabalho informal no centro de São Paulo esteve na pauta da prefeitura pelo menos nos últimos cinco anos, desde a gestão do ex-prefeito José Serra, mas foi apenas no primeiro semestre de 2012 que Gilberto Kassab anunciou alguma solução para realocar os afetados pela medida. Ele anunciou a construção de três shoppings populares até 2013, quando seu mandato já estiver acabado e a continuidade do projeto depender da atenção do prefeito que será eleito no próximo mês.  


Foto: Guilherme San. Rocha

sábado, Setembro 1, 2012

Festival IrrigaVale de Arte Independente

Hoje, no Centro Cultural Rio Verde, Vila Madalena, acontece o Festival IrrigaVale deArte Independente. Financiado coletivamente via Catarse, o festival tem o objetivo de fomentar e incentivar a produção artística que até agora esteve fora do grande circuito.

Além da exposição de artes visuais, vídeo-intalação e intervenções envolvendo o publico, o evento também contara com a apresentação de bandas de diversos estilos musicais. As atrações irão ocorrer durante todo o dia e com entrada franca.

O Sampandando, que é parceiro do IrrigaVale, irá participar expondo três fotografias em grande formato, captadas no Centro de São Paulo, e que ainda não foram veiculadas no site. Essa será a oportunidade de entrar em contato e trocar experiências com pessoas que acreditam na forca da coletividade e do acesso publico à cultural em detrimento de sua privatização dentro das grandes cidades.

Centro Cultural Rio Verde – R. Belmiro Braga, n121, Vila Madalena
2 de Setembro. Entrada franca. Durante todo o dia.

terça-feira, Agosto 14, 2012
 “Vim da Itália com meu pai e minha família quando eu tinha 25 anos, o Brasil é a coisa mais bonita que eu já vi. Gente do mundo todo sempre foi bem recebida aqui, ainda mais em São Paulo.”


“Não tenho mais força pra isso, mas sou alfaiate, igual ao meu avô e o meu pai, eles me ensinaram tudo que eu precisava saber pra fazer uma boa roupa – mas hoje em dia quase ninguém quer ter roupa feita a mão.”


“Eu vim morar na Vila Mariana faz 35 anos, com a minha mulher. Agora que eu sou sozinho, a Rita cuida de mim, e quando faz sol, gosto de ficar aqui sentado, olhando o movimento com ela.”


“São Paulo é maravilhosa, cheia de jovens, muita coisa pra fazer, mas parece que as pessoas daqui não querem cuidar da cidade.”
Mauro, de 102 anos de idade, com Rita, sua acompanhante. Conheci os dois na Vila Mariana, quando conversavam na calçada em uma manhã ensolarada. 
foto: Guilherme San. Rocha

 “Vim da Itália com meu pai e minha família quando eu tinha 25 anos, o Brasil é a coisa mais bonita que eu já vi. Gente do mundo todo sempre foi bem recebida aqui, ainda mais em São Paulo.”



“Não tenho mais força pra isso, mas sou alfaiate, igual ao meu avô e o meu pai, eles me ensinaram tudo que eu precisava saber pra fazer uma boa roupa – mas hoje em dia quase ninguém quer ter roupa feita a mão.”



“Eu vim morar na Vila Mariana faz 35 anos, com a minha mulher. Agora que eu sou sozinho, a Rita cuida de mim, e quando faz sol, gosto de ficar aqui sentado, olhando o movimento com ela.”



“São Paulo é maravilhosa, cheia de jovens, muita coisa pra fazer, mas parece que as pessoas daqui não querem cuidar da cidade.”

Mauro, de 102 anos de idade, com Rita, sua acompanhante. Conheci os dois na Vila Mariana, quando conversavam na calçada em uma manhã ensolarada. 

foto: Guilherme San. Rocha

quarta-feira, Agosto 8, 2012

Jardim Suspenso da Babilônia

Tarde de domingo. O Minhocão está fechado para os carros e, depois de seis dias, aberto para as pessoas. Entre adultos em dia de folga e crianças brincando no elevado, surge um grupo de mais ou menos 20 pessoas, todos carregando grandes pincéis de madeira e baldes de cal branca. Olhares de estranheza em torno daquela estranha movimentação.

 Se fossem pedreiros ou operários da construção civil - facilmente associados ao uso da cal - mas não era o caso – eram de outro ofício, e eram todos adultos, mas também nem tanto, melhor assim: eram adultos vestidos de jovem, modernosos, como tantos outros andando aí pela cidade.

 Mas a sorte do mais curioso dos espectadores não fora assistir a passagem do estranho grupo, mas sim saber que aquele lugar, a via elevada feia e intrometida entre os prédios, era o local escolhido pelo bando, seu ponto de chegada para o objetivo próximo. Quando pararam, revelou-se o ato logo nas primeiras pinceladas: o asfalto, antes enegrecido e sem graça, agora desabrochava grandes flores brancas.

 Causaram espanto, alegria e temor. Uma mulher que via tudo de um prédio ligou para a polícia, disse que vândalos pichavam o Minhocão. “É cal senhor, sai com água, e essa semana ta chuvosa”, disseram aos policiais, que foram embora em seguida – não viram nada de errado no que acontecia. “É bom gente pensando positivo aqui nesse lugar”, disse outra pessoa, que estava de passagem. Já uma senhora de idade que acompanhava tudo de sua varanda não parava de sorrir, pois dela já não via apenas os carros de sempre.

 A ideia de pintar flores no Minhocão veio do fotografo e artista visual, Felipe Morozini, morador do ultimo andar de um dos prédios em torno do elevado, de onde registrou e comandou a intervenção realizada com a ajuda de seus amigos. Jardim Suspenso da Babilônia foi o nome dado à ação que ocorreu em outubro de 2009, fazendo alusão à revitalização do Minhocão, ou Elevado Costa e Silva, como foi batizado pela prefeitura.

 “Eu acho o Minhocão uma obra muito agressiva, a sensação de acordar e já ter 20 mil carros passando na sua janela é insalubre. Vivo aqui por que quero, mas as outras pessoas moram por falta de opção. Gostaria de dar a elas essa oportunidade de ver algo diferente do trânsito”, disse Morozini na época, em entrevistas aos  jonais Estadão e Folha de São Paulo. Segundo o artista, um de seus maiores desejos é ver a região central mais colorida, e também sonha com todos os prédios do Minhocão pintados por grandes nomes do grafitti nacional.

quinta-feira, Agosto 2, 2012

O Paradoxo da Espera do Ônibus

Homem espera em vão o ônibus. Em vão? Ora, se o ônibus está demorando, então ele está mais perto de chegar. Baseado em várias histórias reais. Desenhos de Gabriel Renner e narração de Chico Serra.

terça-feira, Julho 31, 2012

Na Cidade da Garoa (por Caio Aguida)

A Calçada

(Um garoto de mãos dadas com a mãe para que os perigos não o ataquem na rua.)

Na calçada estava o mapa de São Paulo. São Paulo era cego, devia ser por isso que a cidade tinha céu tão cinza. Santo São Paulo era cego por acaso, a cidade, cega por suas luzes, era um descaso! Um sorriso estampa sua cara, causa do aroma carinhoso dos jardins crescidos por ajuda do céu claro, ainda que fosse cego São Paulo. O mapa se repetia.

Seria triste repetir de ano, e papai não gostava que repetisse palavras engraçadas que falava bravo no carro; mas São Paulo era santo, podia repetir. Haveria tanto cego no mundo? Cegos brancos, cegos pretos, cegos brancos… Mas seriam tantos quanto nas calçadas? São Paulo cidade e São Paulo estado e São Paulo santo eram diferentes: dois apareciam nos livros de Geografia da escola e outro na bíblia da catequese. No fim eram todos cegos, um pela verdade da santa escrita e os outros pela condição de terra de montão. São Paulo era romano, como os números I, II, III, IV(…), sendo romano, nasceu em Roma, que era na Itália, mas São Paulo era tão longe da Itália; seriam os romanos tão importantes para ter um cego dando um nome para São Paulo? Seria a calçada de Roma tão cheia de São Paulos? Tão cheia de cegos? Quantos cegos o garoto via na calçada!São Paulo era cego e escrevia aos corintos, como o moço que papai lia; só que Borges nem era santo, nem era Paulo, nem escrevia pra aparecer na bíblia, nascera muito tarde, escrevia então pros livros de papai, livros que papai dizia serem difíceis porém lindos. Mas dizia também que o não-santo-Borges via o que poucos viam, mas como poderia? Era cego o Borges-não-santo. Era, então, um cego diferente dos cegos que estavam nas calçadas? Será que via em sua cegueira algo que não se vê na visão? Mas está um solzão bonito e ele não vê problemas, quem sabe fosse cego para os problemas e visse coisas belas.

——–

 A Casa 

Bairro classe média: medíocre.
Carro do ano: excepcional.
Casal enlaçado na cama: banal.

A porta da sala de mogno surrupiado das florestas comidas pelas máquinas: grande, pomposa; entalhada a mó de dar ao espaço o seu mais belo tom de modernidade unido ao de rusticidade. Cidade grande mas pacata, sempre pacata; cega, sempre sob o mesmo céu e mesmo santo. O crime na esquina, o bêbado tombado. A sala cheia de móveis comprados e vendidos na ‘Future furniture’, orgulho da Bauhaus por um preço módico… Lembremo-nos: tudo na moda, em alta na Paris, estouro na New York e em plena grande São Paulo. Cozinha planejada, planejadamente parada e lixo abarrotado das comidas mais naturais, sem sujeira, sem panela: tudo natural: ração humana: saúde. Escada encarpetada pra lembrar casa de vó, anos 50; posters vintages nas paredes: Chat Noir, Moulain Rouge. E, somando, a clássica foto da Avenida Paulista pra lembrar que não fomos à Paris.

Paris era a cidade luz, deve ter sido lá que algum bêbado descontrolado gritou, com seu tão bem estudado latim, ‘Fiat Lux!’ e a torre Eiffel se acendeu tornando seu FIAT cincoecento luminoso; no entanto, estávamos em São Paulo e esse moço não precisaria de luz: estamos em São Paulo, cidade cega que não vê mesmo.

A porta do quarto, compensado para compensar o pesado mogno da sala. O som saí, mas basta ser prática e funcional, mais valia mesmo era ser plástica, mas petróleo serve pra mover carros, e carros são tecnologicamente superiores a portas. No corredor, fotos sorridas, casal bonito sempre feliz. Quarto de novo: papelada do casamento na gaveta de baixo; na de cima, papelada do divórcio; na do meio, contas a pagar, documento de carro, casa, mais contas, fotos de família, maços de cigarro e incenso afrodisíaco. O criado-mudo reclama toda vez que chega conta nova, mas segura bem o despertador bem regulado. Uma estante abarrotada de livros: engenharia, odontologia, auto-ajuda; estante que os amigos quando viram invejaram pela dedicação.

O palco principal: casal na cama. Renderia lindas cenas eróticas; mas o futuro do pretérito é a dor mais forte do Homo Sapiens sapiens, que sabe muito e por isso nada faz. O homem dentro da mulher, conforme dita a tradição católica e a tradição genética, biológica; a fé e a ciência aprovaram e o Estado autorizou – a felicidade, há quem diga, extraviou.

O gozo pronto – há proteção para o caso de protozoários ou de tornar-se progenitor – os olhos nos olhos mas a cabeça na gaveta o meio: conta, contrato, incenso gostoso esse. “Que bom poder esquecer das… amanhã trabalho, melhor dormir”, “Ah! O amor é tão belo quando acendemos o incenso, foi a melhor escolha da minha vida”. Casal bonito esse, pele de marfim, fixo como mármore. Depois disso provavelmente virá uma noite de sono, com direito a pesadelo e sonho bom com os vizinhos.

O menininho não era mais menininho, também não era santo: era São Paulo. E tudo seria como deveria ser: A coxa dele na dela; ele na dele, ela na dela.

sexta-feira, Julho 27, 2012
Fragmento urbano / transporte e a espera por ele
foto: guilherme santana rocha

Fragmento urbano / transporte e a espera por ele


foto: guilherme santana rocha

quarta-feira, Julho 25, 2012

Os Carecas do Subúrbio

Como todos sabem a cidade de São Paulo reúne as mais diversas tribos, na sua grande maioria formada por jovens que se encontram em locais como a Av. Paulista, R. Augusta e Galeria do Rock. No entanto, o senso comum, junto com a força da mídia, acaba identificando algumas dessas tribos e grupos como gangues envolvidas em atividades ilegais. Isso ocorre quando um indivíduo que praticou qualquer crime se declara pertencente a determinado grupo, o que nos leva a pensar que todos que se identifiquem a esse mesmo grupo assumam comportamento igual ao do infrator.

É neste contexto de descriminação que skinheads e punks de São Paulo acabaram sendo taxados pela sociedade como vagabundos e encrenqueiros. Embora haja divergências entre os dois movimentos, há muitas coisas que não sabemos sobre eles além dos casos de degradações e violência veiculadas pela mídia sob uma ótica de mão única.

Quando chegou ao Brasil, o movimento skinhead aportou primeiro na cidade de São Paulo. Os Carecas do Subúrbio foi o primeiro grupo autodeclarado de skinheads, nascido no bairro do ABC Paulista nos anos 80 e que deu origem aos grupos que surgiram posteriormente.

Hoje há diversos carecas reunidos em São Paulo, associados ao que eles chamam de Carecas do Brasil e seguindo uma ideologia uniforme. Além de compartilharem o gosto por bandas de rock independente e roupas militares, a característica marcante de seus integrantes é sua postura altamente politizada, nacionalista e anticapitalista.

No inicio, esses grupos de skinheads se uniram à medida que surgiam brigas com punks de outras regiões. O fator político é o principal ponto de divergência entre eles: enquanto os punks são anarquistas e contra qualquer tipo de governança, os skinheads são nacionalistas e acreditam que governos são necessários para o estabelecimento da ordem. Porém, mesmo se tratando de uma minoria extremamente reduzida, há ainda um pequeno grupo de indivíduos que se declaram skinheads seguidores do movimento White Power, de tendência neonazista - embora os carecas digam que esses não são verdadeiros skinheads.

Além dessas questões, os carecas também cultuam o corpo e se dizem contra o uso de drogas, como no depoimento de um deles dado no livro Os Carecas do Subúrbio – Caminhos de um nomadismo moderno (de Marcia Regina da Costa, doutora em Ciências Sociais pela PUCSP): “eu gostei porque os carecas eram mais radicais em matéria de terem postura, treinar, cultuar o corpo. Havia necessidade de se prevenir, defesa pessoal, porque a briga persegue a gente. Eu simpatizei com essa postura antidrogas, tem também esse negócio de passeata, movimento de protesto, me identifiquei muito. Em nossas reuniões nós propomos não sermos um grupo de jovens iguais a tantos outros jovens alienados”.

Em diversos depoimentos de carecas, e inclusive no site dos Carecas do Brasil, eles se declaram também contra o racismo e a homofobia. Embora esse argumento seja usado tanto por skinheads quanto por punks, que acusam uns aos outros de serem preconceituosos e drogados, há registros de ambos os lados sobre essas práticas, pelo menos de indivíduos que se declaravam pertencentes a um desses movimentos – trazendo à tona a confusão generalizante de que todos do mesmo grupo são igualmente violentos.

O fato importante é que tanto punks quanto skinheads já mostraram que são movimentos legítimos de São Paulo e que podem caminhar juntos contra o preconceito que há contra eles e diversos estratos da sociedade. Exemplo disso se deu em junho desse ano, naquilo que se pode chamar de confraria das tribos paulistanas: a Parada LGBT, que além de levar lésbicas, gays, bi e transexuais junto a seus simpatizantes para a Av. Paulista, também atraiu um grupo de cerca de 40 punks e skinheads que levaram cartazes com dizeres contra a homofobia. Claro, sem antes serem barrados pela polícia, que pensou que aqueles jovens estavam ali apenas para algum tipo de violência gratuita.

 

 

 

Fotos: John Adler 

            Leonardo Soares 

 Fonte: Carecas do Brasil

             Os Carecas do Subúrbio - Caminhos de um nomadismo moderno; 1992, Marcia Regina Da Costa

 

sexta-feira, Julho 20, 2012

O Último Cigarro


Aparecia de vez em quando, sempre só, lá pra hora do rush. Sentava nos fundos, longe dos jovens que faziam barulho, e ficava ali os observando em silencio, relembrando em sua roupa de escritório com o rosto meio amargurado. Tinha um ritual que seguia à risca: pedia a cerveja e tirava um maço de cigarros do paletó, - combinação poderosa, ainda mais para os solitários.

Eu estava lá quando ele apareceu mais uma vez, para nunca mais voltar. Quando fazia o de sempre, foi interrompido, “desculpa amigo, entrou a Lei Antifumo, não pode mais fumar nesse lugar”, disse o garçom, meio sem graça. Ele não esboçou muita reação, pois já era amargurado, apenas olhou para o garçom e disse: “posso dar os últimos tragos?”. 

desenho: guilherme santana rocha

 
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